Paulistas, a vida e minha cara de 18 anos
É tudo tão rápido. Despretensioso. Tão natural.
A gente conversa. Dividir alivia o peso do piano que eu trazia nas costas.
A conversa não tem esse tom de confessionário, de desabafo. É tão mais despretensioso, tão mais natural. Não vai ter penitência quando a conversa acabar.
Despretensioso é com s?
Já é domingo a noite. Já acabou o Fantástico. Já é quase segunda-feira. Meu Deus, já é 2012.
Rimos da nossa própria tragédia. Da rotina trágica, dos velhos hábitos, do medo de mudar e do medo que temos da vida.
Brigas com o namorado. Os ex namorados. Filme de cachorro. Aulas de direção. Modelos de tênis, família, carreira e Deus. A gente ri de tudo.
As aulas de direção na sexta-feira foram um sucesso. Teriam sido, se eu não esquecesse de dar seta, ou de soltar o freio de mão, ou de olhar se vem carros ou pedestres - tudo isso alternadamente. Tudo bem, o instrutor acha que tenho 18 anos - “dei um chocolate pra ele por ter me perguntado, parecendo sincero, se eu tinha 18”. “É muita coisa ao mesmo tempo” ela diz, “entrar de ré numa vaga pra mim é uma assombração”.
Apesar do fiasco que é minha coordenação motora, conto, cheia de mim, que fiz baliza na primeira aula. “baliza é com z?”, “acho que sim”. A vida se apresenta pra nós na primeira série do colégio, quando te dizem que ‘casa’ é com S, mas tem som de Z. E logo de saída a vida já se mostra complicada. Bom, pelo menos ela é honesta.
“E ele, parou de te ligar?”, “parou… deve ter morrido”, “tomara”. Rimos sínica e honestamente.
Por alto, precisamos “matar”: um professor de direito e uma ex colega de trabalho. Já “matamos” um ex namorado e vamos “matar” um atual. Esse ainda não decidimos se será “morto” ainda como atual, ou depois que virar ex. Tem uma categoria especial pra eles, ‘Ex bom é ex morto’.
Então discutimos se somos contra roupa com pele de animais. “Sou contra se o animalzinho sofre, tadinho”. “Nossa, tenho fobia de filme de cachorro. Tipo a Lessie. Pra que passar 1 hora e meia vendo um cachorro sofrer e no final voltar pro dono?”. “Verdade. Assisto só o final do filme”. Somos contra roupa com pele de animais e filmes com animais sofrendo. Somos contra o sofrimento. Mas esta compaixão não se aplica aos nossos ex’s.
“Você precisa resolver sua vida”. “É, eu sei”. “Vê se você gosta deste modelo de tênis”.
Lá se foi uma hora, mas ainda temos o que conversar. É tudo muito rápido, muito resumido. Somos paulistas. A gente precisa ir dormir.
A gente se entende.